As gigantes de tecnologia viram quase US$ 900 bilhões (R$ 4,88 trilhões) evaporarem do valor de mercado depois de confirmarem, mais uma vez, uma alta expressiva nos investimentos em inteligência artificial. O episódio chama atenção porque transformou algumas das empresas mais lucrativas da história em negócios que, na prática, estão queimando caixa em ritmo acelerado para bancar a corrida pela IA.
O estrago deve crescer ainda mais, já que parte das companhias enfrentou outro dia de forte desvalorização na Bolsa nesta sexta-feira (30). A Intel chamou atenção ao despencar 28,58%, enquanto a Amazon chegou a cair 5,92%, a Nvidia recuou 4,22% e o Google desvalorizou 1,35% — isso depois de já ter despencado mais de 13% no dia anterior. Ou seja, o nervosismo do mercado em torno dos investimentos bilionários em IA não deu trégua.
Por que os investimentos bilionários em IA assustaram o mercado
As ações das quatro grandes “hiperescaladoras” — Amazon, Meta, Microsoft e Alphabet, dona do Google — caíram logo depois da divulgação dos resultados do terceiro trimestre. O motivo foi que os investimentos de capital praticamente dobraram, enquanto surgiram sinais de desaceleração no crescimento da receita dos principais negócios dessas empresas.
Juntas, essas companhias elevaram seus investimentos de capital — voltados principalmente a chips e data centers — de US$ 113 bilhões para US$ 207 bilhões (R$ 1,12 trilhão) em apenas um ano. Mesmo com a reação negativa do mercado, os executivos do setor mantiveram os planos de gastar outros US$ 232 bilhões no quarto trimestre, o que pode levar o total investido neste ano a US$ 740 bilhões (R$ 4,01 trilhões).
Até pouco tempo atrás, essas empresas conseguiam bancar tudo isso com fluxo de caixa de sobra. No entanto, a maioria começou a queimar caixa recentemente — muitas vezes pela primeira vez desde que abriram capital — e precisou recorrer a grandes emissões de dívida e ações para sustentar o ritmo.
Dúvidas sobre a sustentabilidade do boom da IA
Essa mudança brusca no perfil financeiro das big techs reforçou as preocupações sobre até quando o boom da inteligência artificial consegue sustentar o crescimento que vinha puxando Wall Street nos últimos anos. Brent Thill, analista da Jefferies, resumiu o clima afirmando que os investidores se assustaram com resultados até bons, mas longe de excepcionais, e que o mercado está cada vez mais receoso de que os limites físicos para construir infraestrutura impeçam as hiperescaladoras de dar conta de toda a demanda.
“A piscina da tecnologia está fechada. Estamos vendo uma liquidação generalizada, com todos correndo neste momento. Não sabemos se a placa de fechado ficará exposta por 10 minutos, 20 minutos ou mais”, afirmou Brent Thill.
Antes disso, as ações de tecnologia chegaram a recuperar parte das perdas no começo da semana, impulsionadas pela Anthropic, que publicou na segunda-feira (26) seu aguardado prospecto de IPO. O documento mostrou crescimento rápido e uma base de clientes mais diversificada para o laboratório de IA de cinco anos. Apesar disso, a reação dura do mercado aos resultados de alguns dos maiores nomes do setor mostra que ainda pairam dúvidas sobre a sustentabilidade dos investimentos em IA, o que eleva a pressão sobre o IPO da Anthropic, previsto para o fim deste mês.
Quem mais sentiu o impacto dos gastos bilionários em IA
Os gastos com infraestrutura de inteligência artificial em todo o setor de tecnologia já caminham, segundo analistas, para superar — como proporção do PIB dos Estados Unidos — os valores historicamente investidos em ferrovias ou em telecomunicações e fibra óptica. Esse volume gigantesco de recursos teve efeito direto nos balanços de algumas das maiores empresas do planeta.
Google, Meta e Amazon, que juntas geraram US$ 36,4 bilhões em fluxo de caixa livre no terceiro trimestre de 2025, queimaram US$ 45,2 bilhões em caixa no mesmo período deste ano. A Amazon foi a campeã de gastos: registrou fluxo de caixa livre negativo de US$ 33,5 bilhões, depois de elevar os investimentos de capital a um recorde de US$ 75,8 bilhões para acelerar a construção de data centers e a compra de chips.
- Vendas de serviços em nuvem da Amazon Web Services subiram 39%, para US$ 46 bilhões — mas não convenceram o mercado;
- Ações da Amazon caíram 7%, eliminando quase US$ 200 bilhões de valor;
- CEO Andy Jassy apresentou projeção fraca de vendas para o período do Natal;
- Receita do terceiro trimestre ficou abaixo das estimativas.
Brad Reback, analista da Stifel, observou que os investidores estão cada vez mais exigentes com as big techs e querem provas concretas de que os gastos com infraestrutura de IA estão realmente se transformando em novas receitas.
“Grande parte das boas notícias agora já está claramente incorporada aos preços. O mercado está nos dizendo que o custo de capital importa e que, na margem, está ficando mais difícil financiar esses locais”, comentou Brad Reback.
Alphabet lidera as perdas em meio à queima de caixa
Entre todas as empresas, a Alphabet foi a que mais perdeu: sozinha, ficou US$ 500 bilhões (R$ 2,71 trilhões) mais pobre em valor de mercado nesta quinta. O motivo foi a reviravolta no fluxo de caixa livre do Google, que saiu de US$ 24,5 bilhões positivos um ano antes para US$ 9,1 bilhões negativos — apenas o segundo trimestre de queima de caixa desde a abertura de capital da empresa, em 2004. Enquanto isso, os investimentos de capital ultrapassaram US$ 50 bilhões.
O Google também registrou o segundo trimestre seguido de desaceleração no crescimento de sua principal unidade de buscas. Em meio a isso, executivos admitiram que a empresa está tendo dificuldade para gerar, com o chatbot Gemini e as respostas do “modo IA”, a mesma receita publicitária que vinha da tradicional lista de links. Assim como aconteceu com a Amazon, o fato de a receita de serviços em nuvem ter dobrado não foi suficiente para reverter o sentimento negativo entre os investidores, deixando claro que, por enquanto, os investimentos bilionários em IA ainda geram mais ansiedade do que confiança no mercado financeiro.
Com informações de redir.folha.com.br.