A Anthropic está prestes a abrir capital na bolsa, mas quem realmente vai mandar na empresa continua sendo um grupo bem específico: os sete bilionários que a fundaram. Com isso, o processo de IPO se transforma também num experimento curioso — afinal, resta saber se a amizade e os valores compartilhados entre eles vão sobreviver às pressões típicas do mercado financeiro.
Na segunda-feira (26), a empresa de inteligência artificial divulgou o prospecto da oferta pública inicial de ações, e o documento revelou um detalhe e tanto: sete executivos vão concentrar o poder de voto na companhia. São eles o presidente-executivo Dario Amodei, a presidente Daniela Amodei, além de Tom Brown, Jack Clark, Jared Kaplan, Sam McCandlish e Christopher Olah. Juntos, receberão uma classe especial de ações que garante a eles 50,1% do poder de voto — ou seja, controle majoritário, mesmo depois da empresa virar pública.
O que muda para quem comprar ações na Anthropic
Na prática, isso significa que os acionistas comuns vão ter pouquíssima influência sobre os rumos da Anthropic. Em vez de participar ativamente das decisões, quem investir precisará confiar no grupo que o próprio prospecto S-1 descreve como “guardiões de nossa missão”. O documento ainda fez questão de destacar a permanência “incomum” dos sete fundadores à frente do negócio — uma alfinetada discreta na rival OpenAI, empresa de onde a maioria deles veio.
Para especialistas do setor, esse tipo de estabilidade pesa a favor da companhia. Jenny Xiao, ex-pesquisadora da OpenAI e hoje sócia da Leonis Capital, resumiu bem o cenário:
“A equipe fundadora da Anthropic tem uma visão e uma cultura incrivelmente unificadas, algo bastante raro entre os laboratórios de IA de fronteira. Isso é bastante tranquilizador para os investidores porque, embora a empresa já esteja bem estabelecida, a rotatividade da liderança ainda leva à perda de conhecimento institucional e prejudica a coerência cultural.”
Quanto ao patrimônio, os valores ainda dependem de como o mercado vai precificar a empresa após a estreia na bolsa. Mesmo assim, já dá para ter uma ideia: as participações de cada fundador foram estimadas em até US$ 15,5 bilhões (R$ 82,9 bilhões), com base na última rodada de captação da Anthropic, realizada em maio, que avaliou a companhia em US$ 965 bilhões (R$ 5,16 trilhões). Vale lembrar que os sete se comprometeram a doar 80% de suas fortunas para instituições de caridade.
Quem são os fundadores da Anthropic
A história do grupo começou bem antes da Anthropic existir. Os sete trabalharam juntos na OpenAI até dezembro de 2020, quando resolveram sair para montar o próprio laboratório. O motivo, segundo relatos, era uma convicção comum: os sistemas de inteligência artificial estavam avançando rápido demais, e isso exigia um caminho de desenvolvimento mais responsável.
“As coisas nunca mais vão voltar a ser tranquilas”, disse Dario Amodei em uma das primeiras reuniões da empresa — frase que, de certa forma, resume o espírito que motivou a saída do grupo da OpenAI.
Foi ele quem reuniu os outros seis para dar início ao novo projeto, embora a ideia original tenha partido de Kaplan, amigo de Amodei desde os tempos de pós-graduação, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto. Antes disso, Amodei já havia trabalhado com Brown e Olah no Google, o que ajuda a explicar as conexões entre o grupo.
Ainda na OpenAI, Kaplan desenvolveu, junto com McCandlish e Amodei, pesquisas sobre as chamadas “leis de escala” — estudos que explicam como a capacidade dos modelos de IA cresce conforme aumentam a quantidade de dados e o poder computacional disponível. Essas descobertas, aliás, acabaram moldando boa parte da forma como o setor de inteligência artificial desenvolve modelos até hoje.
Da OpenAI a uma empresa com propósito duplo
Completando o time, Daniela Amodei — que atuava com segurança e políticas de IA na OpenAI — e Jack Clark, ex-jornalista da Bloomberg que trabalhava com políticas e comunicação na mesma empresa, também deixaram seus cargos para ajudar a fundar a Anthropic.
“Nós sete realmente sentíamos que tínhamos nossa própria visão e queríamos simplesmente colocá-la em prática à nossa maneira, em outro lugar, porque haveria menos atrito”, contou Daniela Amodei ao Financial Times no início deste ano.
Antes de decidir o formato final do negócio, o grupo chegou a debater se deveria criar uma empresa tradicional ou algo mais parecido com o Cern, o conhecido centro de pesquisa em física da Suíça, segundo pessoas próximas ao processo. Inclusive, vários integrantes manifestaram receios sobre transformar o projeto em um empreendimento com fins lucrativos.
No fim das contas, prevaleceu a necessidade prática: operar modelos de inteligência artificial em larga escala exige somas enormes de capital. Por isso, optaram por estruturar a Anthropic como uma public benefit corporation — um modelo de empresa que obriga a considerar o impacto social das decisões, e não só o retorno financeiro aos acionistas.
Apesar do crescimento acelerado e da avaliação bilionária, os sete cofundadores seguem mantendo influência direta sobre os rumos da companhia e, segundo pessoas próximas a eles, continuam com laços pessoais fortes. O grupo ainda se encontra regularmente em um mesmo restaurante chinês de San Francisco, ponto de encontro frequentado há anos, onde trocam ideias e dividem aprendizados. Com o passar do tempo, as semelhanças entre eles também se multiplicaram: vários tiveram filhos desde a criação da empresa, reforçando o caráter quase familiar de uma sociedade que agora se prepara para enfrentar o escrutínio público da bolsa de valores.
Com informações de redir.folha.com.br.