Desde que o Google Analytics 4 virou obrigatório em julho de 2023 e, meses depois, a Google começou a espalhar as AI Overviews pelas buscas americanas, o mercado de SEO perdeu aquele “chão firme” que tinha antes para comparar dados de tráfego. Ainda assim, dá pra enxergar tendências claras olhando para o comportamento dos sites mais visitados dos Estados Unidos ao longo do último ano.
A ferramenta Semrush Traffic Analytics, que monitora mensalmente os sites mais acessados no país, permite justamente essa comparação: pegando os números de julho de 2026 e colocando lado a lado com o mesmo mês de 2025, dá para separar o que realmente mudou do que é só impressão.
No topo, os nomes continuam os mesmos — mas o volume mudou tudo
À primeira vista, o pódio parece congelado no tempo:
- Google segue em primeiro lugar, com 25,3 bilhões de visitas mensais nos EUA;
- YouTube mantém a segunda posição, com 10,3 bilhões;
- Reddit permanece em terceiro, com 2,61 bilhões.
Só que quem olha apenas o ranking se engana redondamente. O tráfego do Google cresceu 10,72% na comparação anual, enquanto o YouTube surpreendeu com um salto de 36,6%. Juntas, as duas plataformas puxam uma fatia gigantesca da atenção online, e os três primeiros colocados sozinhos respondem por 54,3% de todo o tráfego do top 10.
Ou seja: a concentração no topo da web não afrouxou com a chegada da IA nas buscas — pelo contrário, apertou ainda mais. O tráfego total dos 150 maiores sites dos EUA cresceu apenas 6,1% no período, e o top 10 continua abocanhando 68,6% de tudo isso, número praticamente igual aos 68,8% registrados um ano antes.
ChatGPT é o grande vencedor da temporada

Se existe um número capaz de resumir a virada no cenário das buscas, é este: o ChatGPT.com cresceu 48,38% em relação ao ano anterior e agora ocupa a nona posição entre todos os sites dos Estados Unidos, com 1,09 bilhão de visitas mensais — ultrapassando o DuckDuckGo e o Bing.
Há um ano essa frase soaria estranha. Hoje, um chatbot de inteligência artificial supera buscadores que existem desde 2008 e 2009.
Para efeito de comparação, o TikTok aparece na 14ª posição, com 573,6 milhões de visitas e um crescimento bem mais tímido de 1,63%. Isso mostra que não é qualquer “plataforma nova” que está bombando — é especificamente o uso de IA generativa que deixou de ser novidade passageira e virou hábito, rápido o suficiente para gerar um dos maiores saltos de tráfego entre os 20 primeiros colocados.
Outros destaques positivos, fora do universo dos chatbots:
- LinkedIn subiu da 21ª para a 19ª posição, com alta de 15,48% e 473,7 milhões de visitas — sua estreia no top 20 nessa base de dados;
- USPS.com (o correio americano) cresceu 12,04%, prova de que utilidade prática e rotina ainda geram tráfego mesmo em tempos de IA por todo lado;
- Twitch subiu cinco posições, chegando ao 25º lugar após um avanço de 25,6%;
- Comix.to teve o maior salto percentual entre todos os sites analisados: saltou 14 posições (do 70º para o 56º lugar) com crescimento de 37,3%.
Os perdedores contam uma história mais interessante que os vencedores
Aqui vem a parte que mais chama atenção: a maior queda percentual entre os 20 primeiros colocados não é de um portal de notícias em crise nem de uma rede social em declínio. É do Bing, que despencou 50,43% na comparação anual.
A Microsoft investiu três anos e somas consideráveis integrando o Copilot ao Bing na tentativa de transformar o burburinho em torno da IA em participação real de mercado nas buscas. Os números sugerem que essa aposta ainda não deu o retorno esperado — o Bing segue com participação praticamente estagnada frente ao Google, como já vinha acontecendo nos últimos anos.
O outro grande tombo é o do Temu, com queda de 28,55%. Nesse caso, a causa é bem conhecida: o fim da isenção tarifária de “de minimis” para importações chinesas de baixo valor, no meio de 2025, destruiu justamente a vantagem de preço que sustentava o crescimento do site nos EUA. Reportagens da época já mostravam o investimento em anúncios e o ranking do aplicativo do Temu desabando junto com a mudança na política comercial. Não foi uma história de SEO ou de IA — foi política tarifária que acabou aparecendo nos números de tráfego.
A lista de perdedores segue com casos previsíveis e outros nem tanto:
- Amazon caiu 15,31% — queda relevante para um site cujo tráfego costuma ser termômetro da saúde do comércio eletrônico;
- Yahoo recuou 13,82%;
- DuckDuckGo perdeu 15,83%, o que chama atenção por se tratar de um buscador, e não de uma rede social ou varejista;
- ESPN caiu da 19ª para a 24ª posição, com queda de 16,0% (366,0 milhões de visitas);
- NBCNews.com despencou 35 posições, indo parar em 145º lugar, com recuo de 20,2%.
Cada uma dessas quedas tem uma causa diferente. Mas, juntas, elas mostram algo que a narrativa simplista de “Google e YouTube continuam ganhando” não conta: o tráfego está sendo redistribuído de forma desigual, por motivos variados, bem abaixo das três primeiras posições que todo mundo já monitora de olho.
O ponto que deveria preocupar quem trabalha com SEO

Em um artigo anterior, a especialista Jes Scholz já alertava que confiar só no GA4 deixa a medição do impacto da IA nas buscas perdida em uma espécie de “triângulo das bermudas” da análise de dados.
O quanto ela estava certa só ficou claro ao revisitar uma conta de GA4 que não era analisada havia um ano.
O caso é de um site de nicho que recebe consultoria voluntária. Comparando o período de 1º de janeiro a 26 de agosto de 2026 com o mesmo intervalo em 2025, os números à primeira vista parecem ótimos: sessões subiram mais de 105%, sessões engajadas cresceram quase 111% e eventos-chave aumentaram cerca de 80,5%. Só que, olhando com mais calma, o tráfego direto cresceu mais de 157% e agora representa mais de 78% do total — ante 62,5% um ano antes.
Na prática, isso significa que o GA4 não consegue identificar a origem de quase quatro em cada cinco visitantes desse site, e essa fatia só cresce mês a mês. “Direto” não é bem uma fonte de tráfego — é o rótulo que o GA4 usa para tudo que não consegue rastrear, e boa parte desse tráfego não identificado provavelmente chega por links gerados dentro de interfaces de chat de IA, que costumam vir sem os dados de referência dos quais o Analytics depende.
Com informações de searchengineland.com.