A Nasdaq, bolsa que concentra boa parte das gigantes de tecnologia, amargava uma queda superior a 1% nesta quinta-feira, depois que os números divulgados pela Alphabet jogaram de volta na mesa uma preocupação que já rondava o mercado há semanas: até onde vão os custos bilionários envolvidos na corrida da inteligência artificial. A queda da Nasdaq, aliás, não veio sozinha — os investidores também estavam de olho em novos dados de inflação nos Estados Unidos, divulgados logo depois de o Federal Reserve decidir manter as taxas de juros sem alteração.
Queda da Nasdaq puxada pela Alphabet
Por volta das 11h51 (horário de Brasília), o panorama dos principais índices americanos já mostrava o nervosismo do mercado. O Dow Jones recuava 0,37%, cotado a 52.278,97 pontos. Já o S&P 500 cedia 0,51%, para 7.704,55 pontos, enquanto a Nasdaq liderava as perdas, com baixa de 1,64%, aos 26.117,47 pontos.
No centro dessa turbulência estava a Alphabet, controladora do Google, cujas ações despencavam mais de 12% — um tombo que colocava a empresa no caminho de registrar sua pior queda diária em um único pregão. O motivo? Resultados abaixo do esperado na área de publicidade em buscas, somados a um consumo de caixa mais acelerado, reflexo direto dos investimentos pesados que a empresa vem fazendo em IA.
Dessa forma, a Alphabet caminhava para perder mais de US$500 bilhões em valor de mercado em um único dia. Esse número, por si só, já representa a maior fatia dos mais de US$693 bilhões que o Nasdaq-100 como um todo estava prestes a perder, caso as quedas se confirmassem até o fechamento.
Gastos com IA preocupam analistas
A Alphabet ainda sinalizou que pretende ampliar significativamente seus investimentos de capital até 2027, o que reforça a leitura de que o ciclo de gastos com inteligência artificial está longe de desacelerar. Sobre esse cenário, Anders Bylund, analista de tecnologia da The Motley Fool, resumiu bem o dilema que ronda o setor:
“Os efeitos positivos da IA devem permanecer intactos nos próximos anos; caso contrário, os investidores da Alphabet (e de outras empresas hiperescaláveis) acabarão reavaliando os múltiplos à medida que os lucros líquidos diminuírem.”
A Microsoft também sentiu o reflexo do clima pessimista: suas ações cediam quase 1%, mesmo após a empresa ter apresentado, na quarta-feira, um fluxo de caixa bem acima do esperado e previsões otimistas para o crescimento da área de nuvem. O que chamou atenção dos investidores, no entanto, foram reportagens indicando que a companhia planeja captar pelo menos US$25 bilhões por meio de sua primeira emissão de títulos com grau de investimento nos EUA em mais de nove anos.
Esse movimento não é isolado. Ao longo do mês, o entusiasmo em torno das ações ligadas à IA já vinha sendo freado por um receio específico: gastos bancados por dívida tendem a pesar mais no bolso das empresas conforme os juros sobem. Até o anúncio da Anthropic, na segunda-feira, de que havia protocolado pedido de abertura de capital (IPO) nos Estados Unidos, trouxe um fôlego passageiro ao mercado — mas o alívio durou pouco antes de os temores voltarem à tona.
Outros setores também sentem o impacto
O índice Philadelphia SE Semiconductor, que vinha de quatro pregões seguidos de alta, também recuava nesta quinta-feira. No setor de software, o clima era ainda mais tenso: as ações da Fortinet, empresa de segurança cibernética, recuavam mais de 20% após a divulgação dos resultados do terceiro trimestre. Já a ServiceNow caía mais de 24%, depois de reportar lucro abaixo das estimativas do mercado para o mesmo período.
Fora do universo da tecnologia, a Caterpillar também contribuía para pressionar o Dow Jones, com uma queda de quase 7%. A empresa manteve sua projeção de vendas anuais, mas isso levantou dúvidas sobre até quando o boom na construção de data centers conseguirá sustentar o crescimento do setor de equipamentos voltados à geração de energia.
Cenário econômico reforça cautela do mercado
Além do noticiário corporativo, os dados macroeconômicos divulgados nesta quinta-feira também entraram na equação. O índice PCE avançou em linha com as estimativas dos economistas ouvidos pela Reuters, enquanto outro indicador mostrou que a economia americana cresceu mais do que o previsto no terceiro trimestre.
Para Angelo Kourkafas, estrategista sênior de investimentos globais da Edward Jones, esse conjunto de sinais tem um recado claro:
“A combinação de um crescimento econômico ainda muito forte e resiliente, juntamente com a inflação e os preços se distanciando ainda mais da meta do Federal Reserve, reforça a expectativa de que outubro tenha sido um ‘salto’ em vez de uma ‘pausa’ para o Fed.”
Vale lembrar que, na quarta-feira, o Federal Reserve optou por manter as taxas de juros inalteradas, movimento já esperado pelo mercado. A decisão de adiar qualquer mudança até depois das eleições de meio de mandato nos EUA, previstas para a próxima semana, mostra que o banco central americano prefere cautela em um momento de tantas incertezas — tanto na economia real quanto no apetite dos investidores por apostas bilionárias em inteligência artificial.
Com informações de infomoney.com.br.