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CDS de empresas de IA: investidores correm para se proteger contra calote — entenda a disparada

Por: Eduardo Carrega
20/10/2026
15:38h
CDS de empresas de IA: investidores correm para se proteger contra calote — entenda a disparada
Entenda por que a procura por CDS de empresas de IA bateu recordes em 2026, com investidores buscando proteção contra calote em meio ao boom de dívida do setor.
RESUMIR COM:

O apetite por CDS (swaps de inadimplência de crédito) vinculados a gigantes da inteligência artificial deu um salto nas últimas semanas. Investidores estão comprando esse tipo de contrato — uma espécie de seguro financeiro — com um objetivo claro: blindar suas carteiras caso o boom bilionário da IA desande e alguma dessas empresas não consiga honrar suas dívidas. O movimento vem turbinando as negociações de um instrumento que ficou famoso justamente por ter sido protagonista da crise financeira global de 2008.

Na prática, o CDS funciona como uma apólice contra calote: quem compra o contrato recebe uma indenização se a empresa à qual ele está atrelado deixar de pagar suas obrigações. E, com a avalanche de empréstimos usada para bancar trilhões de dólares em infraestrutura de IA — data centers, chips e por aí vai —, a procura por essa proteção simplesmente disparou.

CDS de IA batem recordes de negociação

Os números ajudam a entender o tamanho do fenômeno. Mais de US$ 9 bilhões (R$ 45,5 bilhões) em CDS ligados a títulos emitidos por Oracle, SpaceX, Alphabet, Amazon, Meta, Broadcom e Nvidia foram negociados, em média, a cada semana em setembro. Para efeito de comparação, em julho esse volume ficava abaixo de US$ 2 bilhões (R$ 10,05 bilhões) — ou seja, um crescimento e tanto em pouco mais de dois meses, segundo a área de pesquisa do Morgan Stanley.

Esse ritmo acelerado também aparece no retrato do ano inteiro: o volume de negociações de índices de CDS de empresas americanas já superou, em 2026, todo o total registrado ao longo de 2025, de acordo com dados da Bloomberg. Além disso, o custo de comprar esse tipo de proteção para diversas companhias ligadas à IA bateu recorde neste mês, um sinal de que a cautela dos investidores vem crescendo junto com o endividamento do setor.

Esse custo é medido pelo chamado spread, a diferença que determina o preço da proteção. E o detalhe interessante é que ele não subiu só para empresas vistas como mais arriscadas, caso da CoreWeave, provedora de computação em nuvem para IA. O movimento também atingiu companhias consideradas relativamente seguras, como a Microsoft — o que mostra que a preocupação do mercado não está restrita a um nicho, mas se espalha por todo o ecossistema.

“Os CDS se tornaram um indicador fundamental do sentimento dos investidores em relação ao financiamento das grandes empresas de computação em nuvem e ao investimento em IA de forma mais ampla”, disse Manish Kabra, chefe de estratégia de ações dos Estados Unidos no Société Générale. “O mercado está cada vez mais concentrado em duas coisas: CDS e fluxo de caixa livre.”

Dívida das empresas de IA cresce em ritmo acelerado

Por trás desse apetite por proteção está uma emissão de dívida que disparou em 2026. As empresas do setor captaram cerca de US$ 466 bilhões (R$ 2,34 trilhões) até agora neste ano, ante US$ 101 bilhões (R$ 506,3 bilhões) no mesmo período de 2025. Esses recursos, segundo o Morgan Stanley, financiam justamente a infraestrutura que sustenta a corrida da IA, como data centers e chips.

Apesar de o ritmo de empréstimos ter arrefecido um pouco em comparação ao pico de junho, investidores afirmam que dois fatores continuam pressionando a demanda por CDS: a quantidade de grandes tomadores de recursos expostos aos riscos da IA e as dúvidas sobre a capacidade dessas empresas de transformar tanto investimento em retorno concreto.

“É evidente que, em um mercado no qual o risco está muito concentrado, o que você quer comprar são CDS”, disse Jim Caron, diretor de investimentos do grupo de soluções de carteira do Morgan Stanley Investment Management.

Caron acrescentou ainda que esses contratos representam uma forma de proteção relativamente barata para quem quer se resguardar. Tanto que um instrumento antes restrito a investidores especializados em crédito tem ganhado espaço entre gestores de carteiras de múltiplos ativos e de ações, que passaram a usá-lo como alternativa econômica para proteger posições ligadas à tecnologia. Esse movimento, por sinal, ajuda a explicar por que os preços chegaram a patamares recordes.

Receio de bolha impulsiona negociações

A teia de dependências financeiras dentro do setor de inteligência artificial tem alimentado o temor de uma bolha. Não à toa, investidores vêm negociando CDS de empresas que fornecem infraestrutura de computação para nomes como OpenAI e Anthropic, caso de Oracle e Alphabet, segundo participantes do mercado.

“Há um prêmio pela complexidade sendo incorporado aos preços dessas empresas de tecnologia”, disse Gavan Nolan, diretor-executivo da S&P Global Market Intelligence, em referência às estruturas de financiamento complexas e interligadas do setor.

Nolan ainda observou que as grandes oscilações intradiárias nos spreads de CDS refletem “a incerteza que existe no mercado”. Na prática, isso significa que os preços desses contratos podem variar bastante em um único dia, um reflexo direto da falta de clareza sobre os rumos do setor.

Os números mais recentes reforçam esse cenário de apreensão. O custo dos CDS de cinco anos da Meta subiu neste mês para 108 pontos-base, o que significa pagar US$ 108 mil (R$ 541 mil) por ano para proteger US$ 10 milhões (R$ 501 milhões) em dívida contra um calote. Já os derivativos vinculados à Nvidia avançaram para 101 pontos-base. Em ambos os casos, trata-se de valores recordes — mais um indício de que o mercado está de olho redobrado na saúde financeira das gigantes que puxam a corrida bilionária da inteligência artificial.

Com informações de redir.folha.com.br.

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